O GRAVE TEMPO
Tony Antunes
POEMAS & PROSAS DE TONY ANTUNES
CriaArt, 2025
A obra de Tony Antunes é uma rica coletânea de poemas e crônicas que exploram temas como amor, saudade, crítica social e a busca pela identidade. - A poesia é descrita como visceral e metafórica, refletindo a experiência humana. - Os temas abordados incluem amor, saudade, erotismo e crítica ao consumismo. - A linguagem é marcada por neologismos e sonoridade, criando uma musicalidade única. - A obra é dedicada à família do autor, destacando sua gratidão e amor.
Estilo e Técnica Poética - A técnica poética de Tony Antunes é caracterizada por uma linguagem inovadora e uma estrutura que desafia convenções. - Utiliza aliterações, sinestesias e metáforas para enriquecer a experiência de leitura. - A musicalidade é uma característica marcante, mesmo sem rimas. - O autor cria palavras novas, como "chuvorar" e "puriando", que ampliam o vocabulário poético. - A obra é descrita como “Poesia Absoluta”, refletindo a liberdade de expressão do autor.
Temas Centrais na Obra - Os temas centrais da obra de Tony Antunes abrangem a complexidade das emoções humanas e a crítica social. - A saudade é retratada como um "vento sem dono", simbolizando a dor da ausência. - O amor é explorado em suas diversas facetas, incluindo o amor-tênia, que é descrito como parasitário. - A crítica social é evidente em poemas que abordam a destruição da natureza e os conflitos mundiais. - A obra reflete uma profunda conexão com a realidade contemporânea e as lutas pessoais do autor.
Contribuições e Impacto - A obra de Tony Antunes se destaca por sua originalidade e impacto na Literatura Contemporânea. - O autor é reconhecido por sua habilidade em transitar entre poesia e prosa, mantendo a profundidade em ambos os gêneros. - A crítica literária elogia sua capacidade de provocar reflexões sobre a condição humana. - A obra é considerada uma contribuição significativa para a Literatura Brasileira, especialmente na poesia Ultra-moderna. - A originalidade e a força de suas palavras ressoam com leitores, desafiando-os a explorar suas próprias emoções e experiências.
NECRÓPSIA DA SAUDADE
A saudade é explorada como um luto profundo e doloroso, simbolizando a perda e a memória. O vazio é descrito como um “cadáver de luz” que representa a ausência de vida e alegria. A alma é retratada como “órfã de futuro”, consumindo o passado em um estado de desespero. O tempo é personificado como um agente corrosivo que devora as memórias e os sentimentos. A saudade é apresentada como uma necrópsia interminável, refletindo a dor da perda.
Em poemas como “Nomastumado das Vísceras” A vida é comparada a um estado de agonizante deterioração, onde a maldade e a indiferença prevalecem. A vida é descrita como um arrasto, repleta de agonias e desilusões. A linguagem é marcada por uma crítica à falta de sensibilidade e à banalização da dor. O texto reflete sobre a solidão e a desesperança que permeiam a existência humana.
NOSCE TE IPSUM
A busca pelo autoconhecimento é apresentada como uma jornada repleta de vícios e desilusões. O ser humano é retratado como um ser dividido entre o desejo e a realidade. A reflexão sobre a vida é marcada por uma crítica ao consumismo e à superficialidade das relações, onde o tempo é visto como um elemento que esgota as possibilidades de realização pessoal.
NÓSCIOS DE VAGENS E DE VIRGENS
A exploração da dor e da angústia é feita através de imagens de desespero e solidão. A linguagem é rica em metáforas que evocam a fragilidade da vida e a busca por sentido. A crítica social é evidente, abordando a alienação e a falta de conexão entre os indivíduos.
PAPILAS DA FOME
A fome é utilizada como uma metáfora para a insatisfação e a miséria humana. A descrição de corpos esfomeados reflete a realidade de muitos que vivem à margem da sociedade. A linguagem é visceral, evocando a dor e a luta pela sobrevivência.
PERÍMETRO DA ALMA
A reflexão sobre a morte e a vida é central, com a alma sendo desnudada e exposta.
A morte é apresentada como um desbravador que revela a essência do ser humano. O texto sugere que nada está perdido, mesmo na morte, e que as memórias persistem.
PRATÁSIO DE PRANTO
A dor da guerra e da injustiça é retratada de forma intensa e emocional. As imagens de sofrimento e morte são utilizadas para criticar a indiferença da sociedade. O texto evoca um sentimento de compaixão pelas vítimas da violência.
QUADRÁSTICAS SANHAS
A crítica à sociedade contemporânea é feita através de uma linguagem que evoca a confusão e a desordem. A alienação e a falta de propósito são temas centrais, refletindo a crise existencial. A busca por sentido é apresentada como um desafio em meio ao caos.
RETICÊNCIAS
As reticências são utilizadas como símbolo de incerteza e rebeldia na busca pela expressão. A linguagem é marcada por uma crítica à superficialidade da comunicação contemporânea. O texto sugere que a poesia é uma forma de resistência e libertação.
SACRAMENTO
A espiritualidade e a busca por significado são exploradas em um contexto de dúvida e fé. O autor reflete sobre a dualidade da existência, entre o sagrado e o profano. A busca por conexão com o divino é apresentada como uma necessidade humana.
SACRILÉGIO
A crítica à hipocrisia e à moralidade é central, abordando a degradação dos valores humanos. O texto evoca a ideia de que a sociedade se afunda em vícios e desilusões. A linguagem é provocativa, desafiando o leitor a refletir sobre suas próprias crenças.
SANGUE DO MARMOREIO
A dor e a luta pela sobrevivência são retratadas de forma visceral e poética. A linguagem evoca imagens de sofrimento e a fragilidade da vida humana. O texto sugere que a existência é marcada por uma luta constante contra a dor.
SINFONIA DO INVISÍVEL
A busca por significado em meio ao caos é central, com a mente sendo um espaço de conflito. A linguagem é rica em metáforas que evocam a complexidade da experiência humana. O texto sugere que a cura é um processo difícil e muitas vezes incompreendido.
SOLIDÓRBITA
A solidão e a busca por conexão são exploradas em um contexto de desespero e esperança. O autor reflete sobre a condição humana e a luta por significado em um mundo caótico. A linguagem é poética, evocando a beleza e a dor da existência.
TIMBRE DO VENTO
A natureza e a condição humana são interligadas, com o vento simbolizando a passagem do tempo. O texto evoca a ideia de que a vida é uma sinfonia de experiências e emoções. A linguagem é rica em imagens que refletem a complexidade da vida.
TROMPETE DOS DESTERROS
A crítica à sociedade e à indiferença é central, abordando a dor e a injustiça. O texto sugere que todos são afetados pela violência e pela falta de compaixão. A linguagem é provocativa, desafiando o leitor a refletir sobre suas próprias ações.
VARIZES DO ESTUPRO
A violência e a opressão são abordadas de forma contundente, refletindo a realidade de muitas vítimas. O texto critica a hipocrisia da sociedade em relação ao estupro e à violência de gênero. A linguagem é visceral, evocando a dor e a luta pela justiça.
VÉRTEBRAS DO ALVOROÇO
A busca por identidade e significado é central, com a vida sendo uma jornada de descobertas. O autor reflete sobre a condição humana e a luta por um propósito. A linguagem é poética, evocando a beleza e a complexidade da experiência.
VIDE BULA
A crítica à medicalização da vida é central, abordando a busca por soluções rápidas. O texto sugere que a verdadeira cura vai além de medicamentos e tratamentos. A linguagem é provocativa, desafiando o leitor a refletir sobre sua própria saúde.
VITELAS HUMANAS
A violência e a opressão são abordadas de forma contundente, refletindo a realidade de muitas vítimas do genocídio patrocinado pelo Estado e Israel na Palestina. O texto critica a indiferença da sociedade em relação ao sofrimento humano. A linguagem é visceral, evocando a dor e a luta pela justiça.
VITRINE DO VAZIO
A superficialidade e o consumismo são criticados, refletindo a alienação da sociedade contemporânea. O texto sugere que a busca por aparência esvazia a essência do ser humano. A linguagem é provocativa, desafiando o leitor a refletir sobre suas próprias escolhas.
VOLÚPIA VORAZ
A busca por prazer e a luta contra a dor são exploradas em um contexto de desejo e desespero. O texto evoca a ideia de que a vida é uma dança entre a luz e a sombra. A linguagem é rica em imagens que refletem a complexidade da experiência humana.
VÓRTICES PÁLIDOS
A crítica à sociedade e à corrupção é central, abordando a desilusão e a falta de esperança. O texto sugere que a vida é marcada por ciclos de dor e resistência. A linguagem é provocativa, desafiando o leitor a refletir sobre suas próprias ações.
TEXTOS EM PROSA - CRÔNICAS
CRÔNICAS DE UM PREXELÂNDIO
A vida cotidiana é retratada com humor e crítica, abordando a realidade de um professor. O autor reflete sobre a educação e a luta por um futuro melhor para os jovens. A linguagem é leve, mas carrega uma crítica profunda à sociedade contemporânea.
VOCÊ SABE O QUE É HIPÁLAGE?
ANTUNES, Gleidistone.
A hipálage é uma figura de linguagem (ou figura de sintaxe) que consiste no deslocamento de um adjetivo (ou epíteto) de um termo para outro da mesma frase ao qual ele não pertence semanticamente, mas com o qual se relaciona por proximidade.
Por regra, a hipálage atribui uma qualidade ou estado que seria próprio de um ser animado (pessoa ou animal) a um objeto ou coisa inanimada. Diferentemente da metáfora que faz uma comparação indireta.
Exemplos de Hipálage:
“As unhas nervosas de Luísa batiam na mesa.” - Na verdade, Luísa é que estava nervosa, não suas unhas. O adjetivo “nervosas” foi transferido da pessoa para a parte do corpo.
"Fumava o meu cigarro pensativo." - A pessoa que fuma é que está pensativa, não o cigarro.
“Através dos vidros, as coisas fugiam para trás” (Sophia de Mello Breyner Andresen) - As coisas (objetos/paisagem) não fogem, mas sim a pessoa que as observa de dentro de um veículo em movimento.
HIPÁLAGE NA LITERATURA
O uso da hipálage é comum na literatura portuguesa, sendo frequentemente empregada por escritores como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Cesário Verde para criar um efeito estilístico particular.
"[…]
Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!
Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a ideia
De vê-la aproximar, sentado na plateia,
De tê-la num binóculo mordaz!”
Cesário Verde
In.: https://www.tudoepoema.com.br/cesario-verde-humilhacoes/?print=print
“[…] por entre os nevoeiros moles, ele ia pelos montes, pelas colinas, pelos pinheirais, rachar, cortar e desramar, aos ásperos ventos, na grande neve silenciosa.”
QUEIROZ, Eça de. Prosas Bárbaras. Chadron, 1903.
A hipálage é, portanto, um recurso que mistura características sintáticas e semânticas, criando um efeito de estranhamento ou sugestão poética na descrição.
Abaixo, segue um setígono que nos apresenta o fenômeno da hipálage em seus versos:
HIPÁLAGE DO VERSO
Tony Antunes
Ruas embriagadas, tortas e tontas,
No lapso dos desassossegos e agonias,
Homens cambaleiam na corda bamba das guias,
Escarram suas lágrimas de solidão e dor,
Suspiram o pó da terra na poeira do destino,
Em desordem de amor e de ódio,
Cospem a dignidade etilizada de magoas!
“PALMARES, MEU ACALANTO
DE PROSA E POESIA”
Tony Antunes
Não nasci aqui — confesso. Mas há cidades que nos escolhem antes mesmo que a gente as conheça, e Palmares me escolheu assim, num sopro de destino e brisa. Um dia cheguei, distraído de mim, e o Rio Una sussurrou boas-vindas em suas águas de prata, enquanto o Pirangi, com sua calma mística, me olhou como quem reconhece um filho que volta, e não um forasteiro que chega. Desde então, deixei de ser estrangeiro. Tornei-me palmarino por adoção, filho de um ventre de verde e memória.
Palmares é a Terra dos Poetas, mas ouso dizer que aqui até as pedras rimam, e o vento dizem versos pelas ladeiras. Há um encanto solar que acorda a cidade todas as manhãs — o sol, esse antigo filósofo dourado, vem ensinar que viver é um ato de brilho; e à noite, a lua, doce escriba das sombras, escreve nas águas dos rios os segredos que o dia não quis contar.
Quando caminho pelas ruas desta cidade, sinto que piso em páginas. Cada esquina é uma metáfora viva, cada fachada guarda um poema que o tempo deixou autografado. O Teatro Cinema Apolo, de 1914, é o coração pulsante dessa epopeia — o mais antigo do interior pernambucano, mas ainda jovial em alma. Suas cortinas, vermelhas de palco e sonho, abrem-se como se revelassem o espírito da cidade: dramático, lírico, resistente. É ali que o silêncio se faz palavra e o aplauso se torna prece.
E como não falar da Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, esse santuário do verbo e da lembrança? Fenelon, poeta que habita em cada prateleira invisível do lugar. Lá dentro, os livros respiram filosofia e exalam amor, como se o próprio ar fosse feito de sílabas em estado de encantamento. Às vezes sento-me num canto, e juro ouvir um murmúrio antigo — talvez os ecos do velho Clube Literário, ou as conversas de quem acreditava, com fé quase divina, que a palavra pode salvar o mundo.
A Academia Palmarense de Letras renascida em esplendor, nela vejo o símbolo do que Palmares é: uma fênix de letras, ressurgindo das cinzas do esquecimento para iluminar o presente com o fogo da Arte. Ali, onde a prosa encontra o verso, onde a razão beija a emoção, a cidade se reencontra consigo mesma — e comigo também.
Sim, não nasci aqui. Mas quem disse que se precisa nascer aqui para amar esta cidade? Palmares é o meu acalanto de sol e lua, o meu templo de poesia e filosofia, o meu abrigo místico de amor e palavra. Sou um palmarino de coração, batizado nas águas do Una e do Pirangi, e eternamente grato por esta cidade ter me ensinado a lição mais bela: que o verdadeiro lugar de nascimento é aquele onde a alma encontra seu encanto de viver e de amar. Muito obrigado, minha linda Palmares!
Palmares, 22 de outubro de 2025
RESPEITEM-SE OS DIREITOS AUTORAIS
Lei 9610/1998
O AMOR E A POESIA ABSOLUTA:
O SOPRO DIVINO QUE REDIME A ALMA
Tony Antunes
Pessoal, na moral! Estava eu a pensar, lendo Ferreira Gullar, “cá com meus botões”, a seguinte reflexão: “Há um ponto no tempo em que o silêncio se curva diante da palavra, e é ali que nasce a poesia — não como arte somente, mas como necessidade vital. O amor, por sua vez, não é senão o incêndio sagrado que acende essa linguagem.” Quando os olhos do espírito se abrem para ver o mundo com o coração, cada gesto vira verso e cada toque é um sussurro de eternidade. A poesia, nessa perspectiva, não descreve o amor: ela o encarna.
A literariedade é a alforria da linguagem da poética de cada um de nós que nos afoitamos a poetar, literar. Ela toma o cotidiano pelo braço e o leva a dançar sob a luz da transcendência. Quando dizemos que “teu sorriso é um pôr do sol que esqueceu de partir”, não estamos mentindo — estamos dizendo a verdade mais profunda, que só a alma entende. Porque a alma não se alimenta de fatos, mas de símbolos. O poeta, então, é aquele que decifra esse universo simbólico onde o amor é verbo que se faz carne e habita entre nós.
Jesus, o maior dos poetas da existência, dizia: “A boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6:45). E que outra forma mais plena de falar do coração do que a poesia? Suas parábolas, metáforas vivas, são tecidos de fé e compaixão, sementes de amor que só germinam em solos poéticos. Ele não veio ensinar a lógica — veio ensinar o amor, e o fez poeticamente, com gestos e palavras que até hoje nos arrebatam.
Fernando Pessoa, que foi muitos em um só ser, escreveu: “O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos, porque já não posso andar só.” Ele entendia o amor como essa duplicação da alma, um espelho que não apenas reflete, mas revela. Amar é ser outro sem deixar de ser a si mesmo, é estar multiplicado em um só corpo e dividido em todas as ausências.
Nietzsche, filósofo com alma de poeta, clamava: “Temos a arte para não morrer da verdade.” E que verdade é mais insuportável do que a da morte, do vazio, da solidão crua da existência? A poesia — sobretudo a Poesia Absoluta — é o antídoto contra o absurdo. Ela não explica, mas sugere consolo. Não responde, mas acende perguntas eternas em nossas entranhas.
O persa Jalaladim Rumi, Poeta e místico, que dançava com o invisível, escreveu: “Você nasceu com asas, por que insiste em rastejar?” O amor e a poesia são essas asas. Ambos não são fuga do real, mas voo sobre ele. São o modo mais humanamente sagrado de se viver — e por isso, mais divino — de habitar o mundo. Pela poesia, até o sofrimento vira flor, e a saudade se torna presença invertida.
Ferreira Gullar, com sua coragem metafísica, exclamou com uma lucidez cortante: “A arte existe porque a vida não basta!” Mas talvez fosse mais justo dizer: “A poesia existe porque amar exige mais que o mundo pode oferecer.” A vida comum é insuficiente para conter o transbordamento dos que amam demais, dos que veem em cada esquina uma epifania, dos que, ao escreverem um verso, estão, na verdade, orando com a alma escancarada.
Isso é pura mágica, manifestação da fé, neste contexto, não é dogma, mas pulsação. É acreditar que, apesar da dor, vale a pena sentir. É confiar que o amor, mesmo fragmentado, ainda é inteiro no poema. E que cada palavra, quando vestida de metáfora, é capaz de ressuscitar corações que jaziam em silêncio.
Portanto, que se viva poeticamente. Que cada gesto seja um verso, cada lágrima uma estrofe, cada abraço uma rima. Porque apenas viver, é pouco. É preciso amar com palavras e com o corpo, com a fé de quem sabe que o amor é o único verbo digno de conjugar-se eternamente. Como disse Jesus, como sussurrou Pessoa, como gritou Gullar — Só pela poesia é que se pode suportar a vastidão da própria existência!
A ESTRANHEZA POÉTICA
DE TONY ANTUNES
Um dos fortes pilares que sustentam a inovação poética é a aparição repentina do espanto. Este elemento surpreende o leitor e até mesmo quem elabora o poema. Firma-se como bate-estaca indispensável na edificação do verso. Poesia que não causa estranheza é choupana fincada na areia e não resiste à ventania de uma crítica literária que seja a mais simplista possível.
Sofisticado é o verso de Tony Antunes. Verdadeira imersão no terreno das letras provocativas. Se considerarmos cada poema como um mundo novo, novíssima é a criação desse poeta que jamais repete uma fibra semântica. Por isso, supera a si mesmo em toda estrofe. É um criador de neologismos rebuscados e invencionices linguísticas. Espantoso. Esta é a palavra que define tal poeta.
Assim, uma neblina intencional encobre a clareza do quase (des)dito, obscuro pensar que atravessa a motivação criadora. Enquanto isso, as rimas internas (ocos-esgotos; abençoado-abismado...) suavizam as vigas de concreto que se formam no alinhamento de vocábulos incomuns:
“Arde no peito de ocos cérebros
os esgotos solitários das bobagens
um caos abençoado abismado espero
no espaço trapézico de titânio.”
Portanto, eis a advertência: Prepare-se para o confronto declarado no verso de Antunes: “o éter e a ética supuram insanos.”
Boa (e estranha) leitura!
Professor de Teoria Literária